RUI BARBOSA: O ÁGUIA DE HAIA

Cotidiano

Baiano
e baixinho, cabeça grande e olhar vivo, jurista notável e literato de
peso, Rui Barbosa foi talvez a mais significativa personalidade de uma
época da historia brasileira. Essa época, da metade do século XIX, à
segunda década do século XX, foi marcada por profundas transformações na
vida política, social e econômica, tanto nos países europeus como no Brasil. Na Europa, as grandes potencias industriais e militares cada vez
mais se impunham as pequenas nações, originando tensões e problemas
diplomáticos que pintavam perspectivas sombrias para o futuro. Enquanto
isso, no Brasil, expandia-se aceleradamente a indústria, abrindo campo
de trabalho para operários assalariados e levando à formação de fortes
grupos industrialistas, seus interesses opunham-se fortemente aos dos
fazendeiros, cuja a prosperidade dependia principalmente da mão de obra
escrava. Em consequência, o governo monarquista constitucional
enfrentava sérias dificuldades sociais e políticas, além dos problemas econômicos, que não eram poucos. A fim de resolver a questão,
industriais e comerciantes se agruparam num núcleo liberal, que se
lançou ativamente à luta anti escravista e, depois de muita campanha,
acabou por conseguir a abolição da escravatura em 1888. Anos mais tarde,
já instalada a Republica, esse mesmo grupo empreenderia nova e veemente
campanha contra a infiltração de uma mentalidade  militaristica na
política, o que provocava uma redução cada vez maior do poder civil.

Rui Barbosa, que viera ainda jovem da Bahia para São Paulo ali fizera o
curso  de Direito, acompanhou desde o inicio as atividades dessa ala
liberal que defendia a emancipação dos negros e logo se tornou um dos
seu líderes mais respeitados. Em 1877 foi eleito deputado provincial
pela Bahia e, já no ano seguinte, o  seu brilhantismo como orador e sua
competência como jurista lhe valeram a eleição para o cargo de deputado à
Assembleia Geral da Corte. Sintonizado com seu tempo e percebendo os
perigos que se desenhavam para o futuro, ele empenhou todo o seu talento
como político, literato e jornalista na afirmação do Direito como base
para uma paz duradoura entre as nações, como sustentação das liberdades
individuais e como instrumento de defesa do Poder Civil.

Sua luta pela abolição da escravatura, seu trabalho na Conferência de
Haia, sua participação na campanha civilista e a sua candidatura à
Presidencia da Republica não tiveram outro sentido.
Por volta do início do século XX, a situação política mundial tornava-se
realmente grave. Na Europa multiplicavam-se as áreas de atrito e a
guerra deixava de ser uma possibilidade remota para transforma-se em
ameaça iminente. Em vista disso, reuniu-se em Haia, no ano de 1907, uma
conferência para discutir a paz mundial. Representante brasileiro: Rui
Barbosa. Fazendo-se porta-voz das pequenas nações do mundo e para forte
irritação das grandes, Rui apresentou uma tese que defendia a igualdade
entre os países,qualquer que fosse o seu poderio militar. E, após
defende-la brilhantemente durante todo o decorrer da reunião, acentuou,
em seu discurso de encerramento: “É o mais abominável dos erros o que
persiste em cometer, insistindo em ensinar aos povos que as categoria
entre os Estados se hão de medir segundo a sua situação militar, e isto
justamente numa assembleia cujo fim consiste em nos distanciar da
guerra.

“Atentai bem nas consequências, já agora mais formidáveis do que nenhum
em outra época. Há cerca de três anos que não descortinava a Europa,
além de si mesma, no seu horizonte político, senão os Estados Unidos,
como uma espécie de projeção europeia… Na Ásia  e na América Latina,
mal se divisavam  expressões geográficas, com uma situação política de condescendência. Eis senão quando, no meio do assombro geral, se dá por
uma aparição tremenda no Oriente. Era o inesperado nascimento de uma
grande potência. Entrava o Japão no concerto europeu pela porta da
guerra, que forçava com a sua espada”. Com essas ponderações, entre
muitas outras, Rui procurava chamar a atenção mundial para a corrida
armamentista que já então se delineava, cuja a consequência obrigatória 
seria uma politica caracterizada por regimes totalitários.

Os anos seguintes confirmaram suas previsões. E as bem intencionadas
propostas da Conferência no sentido de disciplinar as hostilidades
bélicas não tiveram nenhuma aplicação prática. Na Guerra Mundial de
1914, a força das armas anulou todos os entendimentos pacíficos e os
acordos passaram a se fazer entre os mais armados, visando a uma
dominação crescente das pequenas nações, tanto no plano político como no
econômico. Eloquente e combativo, Rui Barbosa dedicou toda a vida à
luta política. Mesmo a sua literatura, e ele foi escritor dos mais
produtivos, teve como tema divulgação e a defesa de idéias políticas.

Ainda moço, como deputado pela Bahia, depois como representante de seu
Estado na Assembleia da Corte, mais tarde como senador da República e
duas vezes como candidato à Presidência, Rui batalhou incansavelmente
pelas causas liberais do Brasil, mas, apesar da sua magnifica oratória e
do seu grande talento político, nem  sempre conseguiu fazer com que
suas ideias fossem ouvidas. Assim que se instalou a Republica, por
exemplo, foi chamado a ocupar a pasta da Fazenda.Mas, em virtude da
desordem então vigente nas finanças brasileiras e devido à especulação
bolsista que campeava na época, todos os seus esforços foram inúteis
para deter a oscilação inflacionária.

Anos
depois, a despeito do imenso prestigio que a sua participação na
Conferência de Haia lhe rendera, enfrentou novo insucesso: candidato à
Presidência em 1909, foi derrotado por Marechal Hermes da Fonseca. A
brilhante campanha civilista liderada por Rui Barbosa fizera com que a
oficialidade do Exercito se unisse em torno dos seus chefes, dando apoio
maciço à candidatura de Hermes, e essa união das forças militares
acabou por provocar a derrota do parlamentar baiano. Derrotas, porém,
não abalavam o ânimo de Rui, que continuou ativamente envolvido nos
problemas da política brasileira. Tanto assim que, no governo de
Rodrigues Alves, recebeu convite para representar o Brasil numa nova
Conferência da Paz, desta vez em Versalhes. A experiência de Haia,
entretanto torna-o descrente desse tipo de negociações, e por isso não
aceitou. Dez anos após seu primeiro fracasso eleitoral, Rui Barbosa
lançou-se novamente à disputa da Presidência. Nesta campanha, as forças
civilistas lideradas por Rui, agora empenhadas em um programa de reivindicações sociais, enfrentavam um núcleo “bairrista” da política,
que visava a reforçar os poderes provinciais, sem interesse maior por
questões de caráter nacional.

Na luta, quem levou a pior foi Rui. Epitácio foi eleito e, para espanto
de todos os que haviam apoiado, assumiu uma atitude surpreendente: num
inesperado gesto civilista, nomeou ministros civis para todas as pastas
militares. Quando a Rui, encerrou a partir de então a sua carreira de
opositor sistemático ao Governo Federal. O conflito mundial de 1914 fez
Rui Barbosa mudar inteiramente a sua atitude em relação à Guerra.
Discursando na Faculdade de Direito de Buenos Aires, em 1916,
pronunciou-se abertamente contra a neutralidade, embora o Brasil se
mantivesse neutro e ele fosse o representante oficial do País nas
comemorações do centenário da independência argentina.

Declarava em seu discurso que “neutralidade” não quer dizer
impassividade, quer dizer imparcialidade e não há imparcialidade entre o
direito e a justiça. Censurando também a neutralidade americana e
propondo a sua transformação em luta do direito contra a força, a oração
de Rui Barbosa teve uma grande repercussão no estrangeiro, onde foi
tomada como a posição oficial do Governo do Brasil. Este no entanto, não
se decidia pela declaração de Guerra, de modo que o velho lutador que
era Rui Barbosa se viu forçado a vir novamente á publico em defesa das
suas ideias. E com, a mesma bravura com que defendia a paz na
Conferência de Haia e atacara o militarismo na Campanha Civilista, o
brilhante tribuno lançou-se a pregação de necessidade de armar o Brasil 
para pô-lo em igualdade com as demais nações. A população brasileira,
revoltada com o afundamento de três navios brasileiros por belonaves
alemães endossou sua posição. E finalmente, a 25 de outubro de 1917, Rui
viu recompensados os seus esforços, atendendo a mensagem do Presidente
Wenceslau Brás, o Congresso brasileiro declarou guerra à Alemanha.

Tendo batalhado ferozmente pela paz entre as nações, Rui Barbosa soube
defender a guerra, quando chegou a hora. Civilista por principio, não
hesitou em pregar a militarização, ao ver que se tornara necessária. Mas
nessas atitudes, aparentemente contraditarias, havia um fundo de grande
coêrencia: o respeito absoluto que Rui Barbosa manteve pelo Direito até
o fim de sua vida. Que ocorreu em 1923 na cidade fluminense de
Petrópolis.

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