Criança de 7 anos foi a última vítima localizada; Polícia Civil apura responsabilidades pelo desabamento enquanto Prefeitura investiga procedimentos de fiscalização de construção que tinha histórico de irregularidades
O desabamento de um prédio em construção na Rua Tequici, na Penha, Zona Leste de São Paulo, terminou com seis pessoas mortas e abriu uma nova etapa de investigação sobre as responsabilidades pela tragédia.
Neste domingo (13), o Corpo de Bombeiros encontrou o corpo da criança de 7 anos que ainda estava desaparecida. Com a localização da última vítima, as operações de busca e salvamento foram encerradas depois de mais de 24 horas de trabalho entre os escombros.
Ao todo, seis pessoas morreram e duas foram retiradas com vida. Entre as vítimas fatais estavam uma mulher grávida e a criança encontrada neste domingo. As vítimas pertenciam a uma família de origem boliviana que vivia no imóvel vizinho atingido pelo desabamento.
O caso, porém, está longe de terminar.
Com o encerramento das buscas, as atenções agora se voltam para uma questão fundamental: como uma construção que acumulou problemas com a fiscalização municipal chegou à situação que terminou em seis mortes?
Sócio de construtora é preso
A Polícia Civil prendeu temporariamente neste domingo um dos sócios-proprietários da New Home, empresa responsável pela construção.
Segundo informação divulgada pelo Governo do Estado, o homem foi conduzido ao 24º Distrito Policial, onde prestaria depoimento e permaneceria à disposição da Justiça.
A polícia também busca cumprir outros dois mandados de prisão temporária contra representantes da empresa.
É importante ressaltar que as prisões são temporárias e fazem parte da investigação. A responsabilidade criminal pelo desabamento ainda deverá ser estabelecida pelas autoridades competentes.
A construtora, procurada pela imprensa, informou que realiza uma apuração interna, lamenta o ocorrido e presta auxílio às famílias atingidas.
Construção tinha histórico de problemas
Um dos pontos mais importantes do caso é o histórico da obra.
De acordo com informações da Prefeitura de São Paulo, a construção já havia sido objeto de ações fiscalizatórias, ordem de interdição e aplicação de multas.
Em 2021, o Município chegou a recorrer à Justiça para pedir a demolição de uma construção considerada irregular existente no local. Uma liminar determinou a paralisação das obras.
A situação, entretanto, sofreu uma mudança posteriormente.
Em 2022 foi apresentado um novo projeto e, em agosto de 2023, a Prefeitura emitiu um alvará para a execução de uma nova edificação.
Havia uma condição fundamental: a estrutura anterior deveria ser demolida.
E é justamente o que aconteceu depois que se tornou um dos principais pontos da investigação.
Vistoria de 2024 está sendo investigada
Em fevereiro de 2024, uma vistoria realizada no endereço registrou que a demolição da estrutura anterior havia sido executada.
O documento foi assinado por uma servidora da Subprefeitura da Penha.
Com essa informação, o processo judicial relacionado à construção irregular acabou sendo extinto e a obra passou a contar com alvará vigente para uma nova edificação.
Após o desabamento, entretanto, surgiram indícios de que a demolição exigida poderia não ter sido realizada como previsto.
A Prefeitura determinou, então, a abertura de uma investigação pela Controladoria-Geral do Município (CGM) para analisar os procedimentos de fiscalização.
A servidora relacionada à vistoria foi afastada enquanto o caso é apurado.
Essa investigação deverá esclarecer como a fiscalização foi realizada, quais documentos embasaram a regularização e se houve falhas administrativas.
Uma linha do tempo que precisa ser esclarecida
Até o momento, as informações disponíveis permitem reconstruir alguns dos principais acontecimentos:
2019 — começaram os problemas relacionados à regularização da construção, incluindo pedido de alvará posteriormente indeferido.
2021 — após fiscalizações, interdição e multas, a Prefeitura ingressou com ação judicial buscando a demolição da construção irregular.
2022 — um novo projeto foi apresentado para o endereço.
Agosto de 2023 — foi emitido novo alvará, condicionado à demolição da estrutura anterior.
Fevereiro de 2024 — vistoria municipal registrou que a demolição havia sido realizada.
12 de setembro de 2026 — o prédio em construção desabou sobre uma residência vizinha durante a madrugada.
13 de setembro — o número de mortos chegou a seis, as buscas foram encerradas e um dos sócios da construtora foi preso temporariamente.
Essa sequência deverá ser confrontada com documentos, perícias e depoimentos durante as investigações.
Duas pessoas sobreviveram
Em meio à tragédia, duas pessoas foram encontradas com vida pelos bombeiros e encaminhadas para atendimento médico.
A operação de busca mobilizou dezenas de bombeiros, viaturas, cães de busca e equipamentos para movimentação de grandes estruturas de concreto.
O trabalho foi especialmente delicado porque o prédio desabou sobre a residência vizinha, deixando grandes blocos de concreto e ferragens sobre o imóvel.
Após a localização da última vítima neste domingo, a fase de busca e salvamento foi encerrada.
Famílias das vítimas são bolivianas
As seis pessoas que morreram eram de origem boliviana. Segundo a apuração mais recente da Folha de S.Paulo, elas viviam e trabalhavam no imóvel atingido pelos escombros.
O Consulado da Bolívia acompanha o caso e trabalha para auxiliar os familiares, inclusive nos procedimentos relacionados ao traslado dos corpos para o país de origem.
O aspecto humano da tragédia deve permanecer no centro da cobertura: por trás das investigações administrativas, policiais e técnicas estão famílias que perderam parentes de forma repentina.
Chovia muito, mas causa do desabamento ainda precisa ser determinada
Outro ponto exige cautela.
São Paulo enfrentava chuvas intensas quando ocorreu o desabamento. A Defesa Civil avalia as circunstâncias do colapso e a possível influência das condições meteorológicas.
Isso, entretanto, não permite concluir que a chuva tenha causado a queda do prédio.
A determinação da causa dependerá de perícias técnicas que deverão analisar a estrutura, o projeto, a execução da obra, o terreno e outros elementos.
Portanto, até que haja uma conclusão oficial, atribuir a tragédia exclusivamente às chuvas seria precipitado.
Investigações entram em nova fase
Com o encerramento das buscas, pelo menos três frentes passam a ser fundamentais para esclarecer o caso.
A Polícia Civil investiga eventuais responsabilidades criminais.
A Controladoria-Geral do Município apura os procedimentos adotados pela fiscalização municipal.
E as perícias técnicas deverão ajudar a determinar por que a estrutura entrou em colapso.
Também será necessário esclarecer exatamente o que ocorreu entre as primeiras intervenções da Prefeitura, a ação judicial, a emissão do novo alvará e a vistoria realizada em 2024.
São respostas importantes não apenas para determinar responsabilidades pela tragédia da Penha, mas também para avaliar se os mecanismos de fiscalização de grandes construções estão funcionando de maneira adequada na cidade.
Zona Leste em Foco continuará acompanhando o caso
O desabamento ocorrido na Penha deixa seis mortos, duas pessoas sobreviventes e uma série de perguntas ainda sem resposta.
A prisão temporária de um dos responsáveis pela construtora e a investigação aberta pela Prefeitura mostram que o caso entrou agora em uma nova etapa.
Será necessário aguardar os resultados das perícias e das investigações antes de apontar definitivamente as causas e responsabilidades.
O Zona Leste em Foco continuará acompanhando os desdobramentos, especialmente eventuais conclusões da Polícia Civil, da perícia e da investigação sobre a fiscalização municipal.
Fontes da apuração
Governo de São Paulo — boletim de 13 de setembro e prisão de sócio da construtora
Folha de S.Paulo — seis mortes, encerramento das buscas e histórico da construção
CNN Brasil — histórico da ação judicial e fiscalização da obra
UOL — prisão e investigação sobre a construção
Atualização: Esta reportagem complementa e atualiza as informações publicadas anteriormente pelo Zona Leste em Foco sobre o desabamento na Penha. O número de vítimas foi posteriormente confirmado em seis mortes.

