Levantamento aponta Avenida Itaquera com Rua Campinas do Piauí como o trecho com maior recorrência de alagamentos da capital; pontos do Itaim Paulista e São Mateus também aparecem entre os mais afetados
Os alagamentos continuam sendo um dos problemas mais persistentes enfrentados pelos moradores da Zona Leste de São Paulo. Um levantamento divulgado nesta semana identificou 1.342 ocorrências de alagamento na capital em um período de dois anos e colocou endereços de Itaquera e do Itaim Paulista entre os pontos mais recorrentes da cidade.
O caso mais expressivo está justamente na Zona Leste. O cruzamento da Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí, na região de Vila Carmosina, aparece como o local com maior recorrência: foram registros de alagamento em 15 dias diferentes durante o período analisado.
Em 60% dessas ocorrências, segundo o levantamento, o ponto ficou totalmente intransitável.
O problema é conhecido pelo poder público. Documentos da Prefeitura mostram que o endereço já havia sido incluído entre os locais prioritários para intervenções de drenagem em Itaquera e posteriormente recebeu contratação específica para obras.
Itaim Paulista também aparece entre os pontos mais atingidos
Logo depois do cruzamento de Itaquera aparecem dois trechos da Avenida Marechal Tito, no Itaim Paulista.
Os pontos localizados nas alturas dos números 7.557 e 5.394 registraram problemas em 14 dias diferentes cada um, de acordo com o levantamento.
Esses endereços não aparecem pela primeira vez associados a problemas provocados pelas chuvas.
Em dezembro de 2025, por exemplo, o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrou transbordamentos do Córrego Três Pontes, na altura da Avenida Marechal Tito, 7.557, e do Córrego Itaim, na altura do número 5.394.
Em janeiro de 2026, o CGE voltou a registrar transbordamento do Córrego Três Pontes na altura do número 7.557 durante um episódio de chuva forte na Zona Leste.
Ou seja, os endereços destacados pelo levantamento também aparecem em registros oficiais anteriores de ocorrências relacionadas às chuvas.
Outros endereços da Zona Leste estão entre os mais recorrentes
A presença da região no levantamento não termina em Itaquera e no Itaim Paulista.
A Rua Padre Viegas de Menezes com a Rua Itagimirim, também em Itaquera, aparece com ocorrências em 11 dias diferentes. Segundo os dados divulgados, em aproximadamente 91% delas houve paralisação total do trânsito no ponto.
Já o cruzamento da Avenida Jacu-Pêssego com a Avenida Ragueb Chohfi, em São Mateus, aparece com registros em oito dias.
Entre os dez pontos mais recorrentes de toda a capital apresentados pelo levantamento, portanto, seis estão na Zona Leste, considerando também o trecho da Avenida Alcântara Machado com o Viaduto Guadalajara-João Behisnelian, na Mooca.
Chuva não precisa ser excepcional para provocar problemas
Outro resultado chama atenção.
Segundo o levantamento, nos dias em que a precipitação ficou entre 5 e 10 milímetros por hora, 51,9% dos dias analisados apresentaram pelo menos um ponto de alagamento na cidade.
Quando a intensidade da chuva chegou à faixa entre 20 e 30 milímetros por hora, houve registro de alagamento em todos os dias considerados pelo estudo.
Os dados ajudam a explicar por que moradores de determinadas regiões convivem repetidamente com problemas de mobilidade durante períodos chuvosos.
Também é importante diferenciar alagamento de transbordamento de córregos ou rios. Os fenômenos podem estar relacionados durante chuvas intensas, mas não são necessariamente a mesma ocorrência.
Prefeitura já contratou obra no ponto mais recorrente
O cruzamento da Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí merece atenção especial porque há documentação municipal sobre intervenções no local.
Em acompanhamento publicado pela Prefeitura, a Subprefeitura de Itaquera informou que havia relacionado locais com ocorrências de alagamentos e inundações e definiu pontos prioritários. Entre eles estava justamente a Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí.
Inicialmente, o município mencionava a utilização de aproximadamente R$ 121 mil para melhorias no escoamento das águas pluviais nesse cruzamento. Posteriormente foi aberto um procedimento específico para contratação da intervenção.
Em agosto de 2025, a Prefeitura homologou uma concorrência para “execução de serviços de drenagem na Avenida Itaquera com a Rua Campinas do Piauí – Vila Carmosina – Itaquera”.
O valor contratado informado no documento foi de R$ 95.518,15.
A própria página de contratos administrativos da Subprefeitura continua relacionando o processo e identifica como objeto exatamente os serviços de drenagem naquele cruzamento.
Esse histórico mostra que o problema já havia sido reconhecido pela administração municipal antes da divulgação do novo levantamento.
Obras colocam uma nova pergunta
A existência de intervenção pública no local acrescenta uma questão importante à discussão.
Se o cruzamento foi identificado como prioritário e recebeu contratação específica para melhoria da drenagem, será necessário acompanhar qual foi o resultado efetivo das intervenções e se novas medidas estão previstas para reduzir a recorrência dos alagamentos.
Os dados do levantamento, sozinhos, não permitem concluir que determinada obra tenha fracassado. Parte das ocorrências analisadas pode ser anterior às intervenções, e seria necessário comparar as datas dos alagamentos com o cronograma e a execução dos serviços.
Por isso, atribuir diretamente a persistência do problema à eficácia ou ineficácia da obra seria precipitado.
O que os documentos permitem afirmar é que o endereço aparece tanto no levantamento recente de alagamentos quanto nos registros municipais de locais considerados prioritários para drenagem.
Um problema histórico para moradores da Zona Leste
Os registros oficiais do CGE mostram que diferentes bairros da região enfrentam episódios recorrentes de transbordamentos e alagamentos.
Em fevereiro de 2025, por exemplo, foram registrados transbordamentos do Córrego Itaim, no Itaim Paulista, do Córrego Lajeado, do Córrego Guaratiba, em Guaianases, e do Rio Verde, em Itaquera, durante um mesmo episódio de chuva.
Em abril daquele ano, o CGE voltou a colocar Itaim Paulista, Guaianases e Itaquera em estado de alerta, com registros envolvendo novamente córregos e áreas vulneráveis da região.
Os episódios ajudam a dimensionar um desafio que envolve não apenas a intensidade das chuvas, mas também drenagem urbana, ocupação do solo, impermeabilização, manutenção e capacidade dos sistemas de escoamento.
Com a chegada da primavera e a aproximação do período tradicionalmente mais chuvoso em São Paulo, acompanhar esses pontos torna-se especialmente importante para quem circula diariamente pela região.
Para os moradores da Zona Leste, os novos dados transformam endereços já conhecidos pelos transtornos das chuvas em um alerta adicional: alguns dos pontos com maior recorrência de alagamentos de toda São Paulo estão justamente deste lado da cidade.

