Falha no Smart Sampa

Smart Sampa: exposição de dados de acesso a 58 mil câmeras levanta alerta sobre segurança e privacidade em São Paulo

Segurança

Investigação jornalística identificou credenciais e informações restritas disponíveis na internet por cerca de 11 meses. Prefeitura atribui vazamento a servidor afastado e nega fragilidade na plataforma; Zona Leste tinha 9 mil câmeras integradas ao sistema em abril.

Uma investigação publicada nesta terça-feira (20) pelo portal UOL revelou que informações restritas do Smart Sampa, sistema de videomonitoramento utilizado pela Prefeitura de São Paulo, permaneceram expostas na internet durante aproximadamente 11 meses.

Segundo a reportagem, o material encontrado permitia acesso não autorizado a uma plataforma que reúne imagens de mais de 58 mil câmeras espalhadas pela capital, incluindo equipamentos instalados em vias públicas, escolas, creches e unidades de saúde.

A investigação identificou dados de acesso de usuários autorizados e informações relacionadas a milhares de agentes de segurança pública. Os jornalistas conseguiram acessar imagens de câmeras conectadas ao sistema, demonstrando que as informações expostas poderiam ser utilizadas para visualizar áreas monitoradas.

A Prefeitura confirmou a ocorrência de um vazamento ilegal de dados, mas contestou a existência de vulnerabilidades nos mecanismos de segurança da plataforma. Segundo a administração municipal, um servidor foi identificado e afastado, e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.

Zona Leste tinha 9 mil câmeras integradas ao Smart Sampa

A dimensão do sistema também torna o episódio relevante para os moradores da Zona Leste.

Em abril de 2026, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana informou que a região possuía aproximadamente 9 mil câmeras conectadas ao Smart Sampa, quando a rede municipal havia alcançado 50 mil equipamentos.

O programa utiliza câmeras instaladas em espaços públicos e equipamentos privados integrados à plataforma, permitindo o acompanhamento de ocorrências e a identificação de pessoas procuradas pela Justiça.

A tecnologia também auxilia na localização de pessoas desaparecidas e na identificação de veículos relacionados a ocorrências policiais.

Entretanto, não há confirmação de que imagens de câmeras específicas da Zona Leste tenham sido acessadas indevidamente por terceiros.

A quantidade de equipamentos instalados na região demonstra a abrangência do programa, mas não permite concluir que todos tenham sido comprometidos ou utilizados de maneira irregular.

Falha no Smart Sampa: O que a investigação encontrou?

De acordo com o UOL, as informações permaneceram disponíveis em um repositório público na internet por cerca de 11 meses.

Entre os materiais identificados estavam 181 conjuntos de credenciais de acesso, dados de mais de 6 mil agentes de segurança e informações técnicas relacionadas ao funcionamento da plataforma.

A reportagem também relatou a possibilidade de consultar registros associados a pessoas e veículos, além de acessar imagens de locais considerados sensíveis.

Após ser informada sobre a exposição, a Prefeitura retirou o repositório do ar e anunciou medidas adicionais de segurança, incluindo autenticação em duas etapas.

Especialistas em segurança da informação ouvidos pelo UOL alertaram que a concentração de dados em sistemas de videomonitoramento exige controles rigorosos para evitar acessos indevidos, utilização irregular de informações e exposição de cidadãos.

Prefeitura nega falha nos mecanismos de segurança

Em manifestação encaminhada ao UOL, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o episódio decorreu de um vazamento ilegal atribuído a um servidor, e não de uma deficiência estrutural de proteção do Smart Sampa.

A administração informou que o funcionário foi afastado e que o caso está sob investigação da Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.

A Prefeitura também contestou a informação de que o repositório continha senhas de acesso e declarou não ter identificado utilização indevida da plataforma.

Segundo o município, o sistema passou por reforços de segurança, incluindo senhas individuais, autenticação em dois fatores e validação adicional de acesso.

A administração sustenta ainda que o programa possui mecanismos de fiscalização e acompanhamento técnico, além de encaminhar relatórios periódicos de transparência ao Ministério Público.

Há, portanto, uma divergência importante entre as conclusões da investigação jornalística e a avaliação apresentada pela Prefeitura.

Enquanto o UOL demonstrou que era possível acessar imagens utilizando informações encontradas publicamente, o município afirma que o sistema não apresentava fragilidade própria e atribui o episódio à conduta irregular de um agente.

Caso na Zona Leste mostra riscos de identificação equivocada

A discussão sobre o uso do reconhecimento facial também possui um exemplo concreto na Zona Leste.

Em janeiro de 2026, um entregador que acompanhava a companheira grávida em uma unidade de saúde na região do Parque do Carmo foi abordado por agentes de segurança após o Smart Sampa apontar uma semelhança de 97% entre seu rosto e o de um homem condenado por tráfico de drogas.

Segundo o UOL, o trabalhador foi abordado duas vezes, primeiro por guardas-civis metropolitanos e depois por policiais militares.

Ele não foi levado à delegacia, mas relatou constrangimento pelas abordagens. A Justiça determinou que a Prefeitura e o Governo do Estado pagassem, conjuntamente, indenização de R$ 10 mil por danos morais.

O episódio não está relacionado ao vazamento de informações divulgado nesta terça-feira. Entretanto, evidencia outra preocupação envolvendo o programa: a necessidade de conferir os alertas produzidos por sistemas automatizados antes de realizar abordagens policiais.

Dados de transparência citados pela investigação mostram que, entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram conduzidas a delegacias após alertas do Smart Sampa e posteriormente liberadas. Os registros incluem problemas de identificação facial, mandados desatualizados e inconsistências cadastrais.

Quem fiscaliza o uso das imagens e informações?

O Smart Sampa foi instituído pelo Decreto Municipal nº 63.552, de julho de 2024, que estabelece diretrizes para o funcionamento da plataforma.

A legislação prevê mecanismos de controle sobre o acesso às informações, proteção dos dados pessoais e fiscalização das atividades de monitoramento.

O município também possui um Conselho de Gestão e Transparência responsável por acompanhar aspectos do programa, incluindo a autorização de acessos e o cumprimento das normas aplicáveis.

Apesar dessas estruturas, a investigação publicada pelo UOL aponta questionamentos sobre a fiscalização independente dos algoritmos de reconhecimento facial.

Conforme informações obtidas pelo veículo por meio da Lei de Acesso à Informação, a Prefeitura não dispõe do código-fonte nem de informações completas sobre os modelos de inteligência artificial desenvolvidos pela empresa responsável pela tecnologia.

A situação reforça a importância de mecanismos de fiscalização que permitam verificar não apenas os resultados operacionais, mas também a segurança e a confiabilidade dos sistemas utilizados.

Segurança pública e privacidade precisam caminhar juntas

O uso de câmeras e inteligência artificial pode auxiliar o trabalho dos agentes de segurança, especialmente na identificação de pessoas procuradas pela Justiça, na localização de desaparecidos e na resposta a ocorrências.

Segundo a Prefeitura, o Smart Sampa já contribuiu para a captura de milhares de foragidos e para a localização de centenas de pessoas desaparecidas.

Entretanto, a ampliação do videomonitoramento também exige medidas proporcionais de proteção das informações coletadas.

Imagens de crianças em escolas, pacientes em unidades de saúde e moradores circulando pelas ruas precisam ser tratadas com critérios rigorosos de acesso, armazenamento e utilização.

Para os moradores da Zona Leste, onde milhares de câmeras estão conectadas à plataforma, o episódio levanta perguntas importantes sobre a transparência e o controle dos dados.

Entre os esclarecimentos que ainda merecem atenção estão a identificação dos equipamentos eventualmente afetados, a extensão da exposição das informações e os resultados da investigação administrativa.

Também será importante acompanhar se as medidas anunciadas pela Prefeitura serão suficientes para impedir novos episódios semelhantes.

A existência de um sistema de monitoramento destinado à proteção da população não elimina a responsabilidade do poder público de proteger os dados e a privacidade das pessoas monitoradas.

O Zona Leste em Foco continuará atento aos desdobramentos do caso, especialmente às informações que possam esclarecer os impactos para os moradores da região.

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