Construtora sabia de problemas estruturais

Construtora sabia de problemas estruturais antes de prédio desabar na Penha, diz prefeito

Cotidiano

Segundo Ricardo Nunes, empresa responsável teria orçado medidas de reforço meses antes da tragédia que deixou seis mortos; causas e responsabilidades ainda são investigadas.

“Desabamento ocorrido na região da Penha”

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou que a construtora responsável pelo edifício que desabou na Rua Tequici, na região da Penha, já tinha conhecimento de problemas estruturais no imóvel antes da tragédia. Segundo o prefeito, a empresa teria chegado a solicitar, em maio, um orçamento para a execução de medidas de reforço.

A informação acrescenta um novo e grave elemento às investigações sobre o desabamento ocorrido na madrugada de sábado, 12 de setembro. A estrutura em construção caiu sobre uma residência vizinha onde vivia uma família de imigrantes bolivianos, deixando seis mortos e dois feridos.

Apesar da declaração, ainda não existe uma conclusão pericial pública estabelecendo a causa do colapso ou definindo individualmente as responsabilidades. A Polícia Civil analisa documentos, depoimentos e as condições técnicas da obra.

Empresa teria avaliado reforço estrutural

De acordo com a declaração de Ricardo Nunes, os responsáveis pelo empreendimento tinham ciência de que a construção apresentava problemas e chegaram a buscar um orçamento para reforçar a estrutura.

Essa informação deverá ser confrontada com documentos técnicos, mensagens, contratos, orçamentos e depoimentos recolhidos durante a investigação. Também será necessário determinar quais problemas foram identificados, qual era a gravidade deles e quem tomou conhecimento das informações.

Outro ponto a ser esclarecido é se alguma intervenção chegou a ser realizada e, caso não tenha ocorrido, por qual motivo a obra continuou.

A existência de um orçamento, isoladamente, não determina automaticamente a causa do desabamento nem comprova responsabilidade criminal. Entretanto, se o conhecimento prévio de um risco estrutural for confirmado, a informação poderá ter importância central na apuração.

Perícia deverá apontar a causa do desabamento

O edifício utilizava o sistema de alvenaria estrutural, método no qual as próprias paredes exercem função fundamental na sustentação da construção.

Especialistas ouvidos pela imprensa explicam que esse tipo de sistema é amplamente utilizado e considerado seguro quando corretamente projetado e executado. A técnica, porém, exige controle rigoroso dos materiais, das fundações e da disposição dos blocos, além de não permitir alterações ou perfurações improvisadas em pontos essenciais da estrutura.

Por essa razão, não é possível afirmar que o prédio caiu simplesmente porque não possuía o conjunto tradicional de vigas e pilares. A perícia deverá examinar diferentes hipóteses, entre elas:

  • possíveis falhas no projeto;
  • qualidade e resistência dos materiais utilizados;
  • condições das fundações;
  • execução inadequada da obra;
  • modificações feitas durante a construção;
  • eventuais danos ou fragilidades anteriores;
  • cumprimento, ou não, das orientações técnicas.

A conclusão pode levar meses, devido à complexidade da análise e à necessidade de examinar os escombros, os projetos e os demais documentos relacionados ao empreendimento.

Obra acumulava irregularidades

O histórico administrativo da construção também faz parte da apuração. A obra teria começado em 2019 sem a documentação necessária e foi alvo de embargos, multas e medidas judiciais.

Em determinado momento, a liberação de um novo alvará teria sido condicionada à demolição de parte da estrutura existente. Contudo, após o desabamento, surgiram indícios de que essa exigência não havia sido efetivamente cumprida.

A Prefeitura também investiga a atuação de uma servidora da Subprefeitura da Penha relacionada à fiscalização do imóvel. Ela foi afastada preventivamente de suas funções por até 120 dias.

A defesa da servidora contesta as acusações e sustenta que os procedimentos adotados seguiram critérios técnicos. Esse aspecto permanece sob investigação administrativa e policial.

Prefeitura embargou outras obras

Após a tragédia, a administração municipal determinou o embargo de obras em andamento ligadas às empresas investigadas e suspendeu a análise de novos pedidos de alvará apresentados por elas.

A medida tem caráter preventivo e deverá permanecer enquanto os órgãos municipais verificam a situação documental e as condições das construções.

A Controladoria-Geral do Município também deverá acompanhar a perícia técnica. Entidades como o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) e o Instituto de Engenharia indicaram especialistas para colaborar com a apuração.

Investigados e atuação da Polícia Civil

A Justiça decretou prisões temporárias no âmbito da investigação. Ronaldo dos Santos Vivaqua, apontado pela polícia como possível sócio oculto da New Home Construtora, foi preso.

O engenheiro Cristiano Vivaqua, responsável técnico pelo empreendimento, e Isis Brandão, apontada como sócia-administradora da empresa, eram procurados pelas autoridades nas informações divulgadas até a preparação desta reportagem.

A defesa dos investigados afirmou que eles pretendiam se apresentar e considerou prematura a atribuição de responsabilidades antes da conclusão da perícia. Também alegou que a construção estava amparada por decisão judicial.

A Polícia Civil apura se as condutas investigadas podem caracterizar homicídio com dolo eventual — situação na qual uma pessoa não necessariamente deseja o resultado, mas, segundo a hipótese jurídica, assume o risco de que ele ocorra.

A eventual aplicação desse enquadramento dependerá das provas reunidas, da conclusão do inquérito, da manifestação do Ministério Público e, posteriormente, das decisões da Justiça. Portanto, não existe até o momento condenação contra os investigados.

Tragédia deixou seis mortos

O desabamento ocorreu por volta das 2h do dia 12 de setembro. O edifício em construção caiu sobre uma casa vizinha onde as vítimas moravam e também trabalhavam.

As equipes de resgate atuaram por mais de 24 horas, com apoio de cães farejadores e dezenas de profissionais. Seis pessoas morreram, entre elas uma menina de sete anos. Outras duas vítimas foram retiradas com vida.

O episódio provocou comoção entre moradores da Penha e aumentou os questionamentos sobre a fiscalização de obras irregulares na capital.

Além de identificar a causa técnica do colapso, as investigações deverão esclarecer se os órgãos públicos adotaram todas as providências possíveis diante do histórico do imóvel e se houve omissão ou irregularidade por parte de agentes privados ou servidores.

O que ainda precisa ser esclarecido

Com o avanço das apurações, algumas perguntas passam a ocupar o centro do caso:

  • Qual problema estrutural havia sido identificado antes do desabamento?
  • Quem recebeu ou solicitou o orçamento para reforçar o prédio?
  • Por que as medidas de reforço não teriam sido executadas?
  • A continuidade da obra representava um risco conhecido?
  • A construção respeitava o projeto e as exigências técnicas?
  • Como uma estrutura que deveria ter sido demolida permaneceu no local?
  • Houve falha, omissão ou fraude no processo de fiscalização?

As respostas dependerão da análise de documentos, laudos, registros municipais e depoimentos. Até que a perícia e as investigações sejam concluídas, as informações sobre o conhecimento prévio dos problemas devem ser apresentadas como alegações sob apuração.

O Zona Leste em Foco continuará acompanhando o caso e atualizará a cobertura sempre que houver informações oficiais e comprovadas.

Fontes consultadas

Folha de S.Paulo — embargo de obras ligadas às empresas investigadas

UOL — investigação municipal sobre a servidora afastada

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