Tiete O Rio das Nossas Lembranças
Tiete O Rio das Nossas Lembranças.Houve um tempo em que o Rio Tietê não tinha pressa. Ele não corria espremido entre as pistas da Marginal, alimentado pelo ronco monótono dos motores e pela fuligem dos escapamentos. Houve um tempo e os mais velhos da Zona Leste guardam essa lembrança como um tesouro escondido no fundo da gaveta em que o rio era verde, vivo, sinuoso e generoso.
Lá pelos lados do Belém, da Penha, do Cangaíba, de Ermelino Matarazzo e de São Miguel Paulista, o Tietê era o verdadeiro quintal da vizinhança. Bastava o sol dar as caras no fim de semana para que as ruelas de terra se enchessem de passos apressados em direção à várzea. A bagagem para o passeio era simples, mas valiosa: uma vara de bambu flexível, um potinho de maionese cheio de minhocas tiradas da terra úmida do quintal, uma esteira de palha e a clássica marmita de alumínio, cuidadosamente embrulhada num pano de prato xadrez para manter o frango com farofa aquecido.
Na beira do rio, o tempo parecia desacelerar. Pescava-se de tudo: lambari reluzente, mandi-chorão, carpa e as valentes traíras que davam trabalho para puxar.
— Olha o tamanho dessa, seu Zé! Essa vai direto pra frigideira! — ecoava a voz orgulhosa de algum pescador amador, arrancando risadas do grupo que se acomodava sob a sombra das árvores nativas.
Enquanto os adultos se concentravam no balanço das boias de cortiça na água, as crianças faziam do barranco o seu parque de diversões particular. Descalças, com as barras das calças dobradas até o joelho, elas corriam atrás de borboletas, apostavam corrida na grama baixa da várzea e mergulhavam nos remansos mais calmos. A água era tão clara que deixava ver os pés afundando na areia fina do fundo e os pequenos peixes desfilando entre as pedras. O cheiro não era o do esgoto de hoje, mas um aroma fresco de terra molhada, capim-santo e vida abundante.
Nas tardes mais movimentadas, o Tietê virava um espetáculo coletivo. Nos trechos mais largos, os clubes de regata e as associações varzeanas organizavam competições de remo. Os barcos cortavam o espelho d’água com maestria, enquanto as famílias acomodadas na grama torciam entusiasmadas, dividindo garrafas de guaraná e pedaços de bolo de fubá. Havia também os lendários campos de futebol de várzea, fincados bem na borda do rio; quando a bola chutada sem pontaria caía na água, virava uma festa à parte ver quem criava coragem para nadar e resgatá-la.
O Tietê não era apenas um curso d’água; era um ponto de encontro, um laço comunitário que unia a classe trabalhadora da Zona Leste em momentos de puro lazer gratuito e afeto.
Depois, o tal do progresso veio com passos pesados e apressados. A cidade cresceu em ritmo frenético, retificou as curvas naturais do leito, ergueu paredões de concreto e engoliu os barrancos de terra batida para plantar asfalto e pontes. As traíras deram lugar aos engarrafamentos, o canto dos pássaros foi abafado pela buzina dos caminhões, e o rio acabou virando um corredor de passagem rápida, onde quase ninguém mais se atreve a olhar para o lado.
Hoje, quem passa apressado pela Marginal Na Zona Leste, encarando a mancha cinzenta e silenciosa do rio, talvez não consiga imaginar. Mas quem viveu aquela época sabe: debaixo de todo esse asfalto e desse cinza moderno, ainda corre, inalterável, a memória de um tempo em que São Paulo sabia ser poética, e o Tietê era a nossa praia, a nossa infância e a nossa história mais bonita.
