Onde a Fé e o Samba Dobravam a Esquina
Onde a Fé e o Samba Dobravam a Esquina. O domingo de Carnaval na Vila Matilde tinha um cheiro diferente. Era uma mistura de alfazema, pó de giz das costureiras, café recém-coado e aquele cheirinho de poeira levantada pela brisa do entardecer. Mas, acima de tudo, tinha cheiro de ansiedade boa.
Muito antes dos holofotes gigantes do Anhembi e das arquibancadas de concreto, o Carnaval do bairro tinha endereço certo, altar e testemunhas. A família toda já sabia o roteiro: almoço reforçado, as cadeiras de ferro amareladas pelo tempo puxadas para a calçada e o ponto de encontro sagrado — em frente ao Mosteiro e à Paróquia Nossa Senhora da Esperança.
Ali, naquele pedaço de chão abençoado, o profano e o sagrado não brigavam; davam-se as mãos. Enquanto os sinos do mosteiro silenciavam para dar passagem à noite, as famílias se acomodavam nas calçadas. Vovôs de rádio de pilha na mão, mães ajeitando as fantasias improvisadas das crianças, vizinhos trocando pratos de bolo e risadas. A rua virava uma grande sala de estar sem teto.
De repente, um silêncio suspenso tomava conta do ar. O coração da Vila prendia a respiração.
Lá longe, no dobrar da esquina, começava o arrepio. Não era só barulho, era um tremor que subia pelos pés: o surdo de primeira da Nenê de Vila Matilde chamava o povo. Bum. Bum. Bum.
E então a magia acontecia. A azul e branco despontava na rua. Seu Nenê, com sua elegância impecável e aquele sorriso de quem carregava o mundo no peito, vinha à frente, cumprimentando cada família pelo nome. Naquele tempo, não existia distância entre a escola e o bairro; a Nenê era o bairro. O passista que riscava o asfalto era o filho do padeiro; a baiana que girava com a saia engomada era a parteira que tinha ajudado a colocar metade daquela rua no mundo.
Quando a bateria passava em frente à paróquia, parecia que até as paredes do mosteiro balançavam no ritmo do surdo e no repique do tamborim. Quem olhava para cima podia jurar que até os anjos e as freiras espiavam pelas frestas das janelas, maravilhados com aquela devoção em forma de samba. Era a comunidade celebrando a si mesma, debaixo do olhar protetor de Nossa Senhora da Esperança — que, convenhamos, nunca negou esperança nem alegria àquele povo batalhador.
As penas do pavão brilhavam sob a iluminação amarela dos postes. As crianças, de olhos arregalados, sonhavam com o dia em que seriam elas a cruzar aquele asfalto vestindo o manto azul e branco.
A escola passava, a poeira baixava, mas o eco da batucada ficava preso no peito de cada um até o ano seguinte. As famílias recolhiam suas cadeiras, ajudavam os velhos a subir os degraus e levavam os pequenos no colo, já dormindo embalados pelo ritmo.
O tempo passou, o Carnaval cresceu e ganhou palcos gigantescos. Mas quem viveu aqueles dias sabe: a verdadeira alma da Nenê de Vila Matilde a Escola de Samba que é Patrimônio da Zona Leste de São Paulo ficou ali, guardada para sempre na calçada da Senhora da Esperança, onde o samba não era apenas um espetáculo, mas o abraço mais bonito que uma comunidade poderia dar em si mesma.
