O Chip de Silício e a Marmita de Alumínio

O Chip de Silício e a Marmita de Alumínio

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O Chip de Silício e a Marmita de Alumínio

O Chip de Silício e a Marmita de Alumínio. Sentado no vagão do metrô, observei a cena. Ao meu lado, um rapaz deslizava o indicador com maestria por uma tela de alta definição. Descobri, por tabela, que em um laboratório do outro lado do mundo, supercomputadores processavam quatrilhões de cálculos por segundo para decifrar a dobra de uma proteína. No mesmo segundo, um satélite em órbita captava o movimento das marés, e um algoritmo de inteligência artificial escrevia um poema no estilo barroco a partir de um comando de duas palavras.

Acumulamos tanto saber que a biblioteca de Alexandria pareceria, hoje, um panfleto de farmácia. Dominamos a fissão do átomo, mapeamos o DNA, enviamos sondas para além do sistema solar e empacotamos todo o conhecimento da história humana em um aparelho retangular que cabe no bolso de trás da calça jeans.

É a era de ouro da inteligência. Somos gigantes virtuais.

A composição do vagão, no entanto, contava outra história. O sinal do celular caiu exatamente quando o trem saiu da estação subterrânea e emergiu no elevado. Pela janela, sob a luz alaranjada do fim da tarde, vi as fileiras infinitas de barracos de tábua e alvenaria aparente que margeavam a linha do trem. Nas calçadas abaixo, homens e mulheres caminhavam a passos lentos, ombros curvados pelo peso de mais uma jornada de doze horas, voltando para casas sem saneamento básico.

Pensei no homem que inventou a roda, no que descobriu o fogo, no que sintetizou a penicilina. Pensei nos bibliotecários, nos matemáticos, nos engenheiros da computação. Quantas mentes brilhantes nos trouxeram até aqui? E, no entanto, ali estava a maior contradição do nosso tempo: aprendemos a conversar instantaneamente com o Japão, mas ainda não descobrimos como fazer o prato de comida atravessar a rua e chegar à mesa de quem tem fome.

Guardamos o genoma humano na nuvem, mas milhares de crianças ainda adoecem por beberem água da mesma poça onde os cachorros se banham. Temos algoritmos capazes de prever o comportamento das bolsas de valores com precisão cirúrgica, mas falhamos miseravelmente na conta mais simples de todas: a divisão.

O rapaz ao meu lado fechou o aplicativo da inteligência artificial e abriu a marmita de alumínio enfaixada num pano de prato. O cheiro de arroz com ovo tomou conta do espaço entre o seu smartphone de última geração e a sua dura realidade.

Ele olhou para a tela, olhou para o prato e depois olhou pela janela, encarando a mesma favela que eu. Por um instante, nossos olhares se cruzaram no reflexo do vidro. Não dissemos nada. Não era preciso.

Temos o mundo inteiro na ponta dos dedos, mas a humanidade, essa ciência tão antiga e teimosa, continua engasgada na primeira página do livro.

Em algum momento despertaremos desse sono hipnótico e teremos um futuro onde as divisões serão mais justas. Até lá ficamos com as Crônicas do dia a dia “O Chip de Silício e a Marmita de Alumínio.

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