O Gosto da Nata e o Chão de Terra: A Zona Leste que o Tempo Levou
A Zona Leste que o Tempo Levou. Diz o meu pai que a Zona Leste dos anos 70 não tinha a pressa de hoje. Naquele tempo, o relógio não corria; ele caminhava devagar, no ritmo dos passos do padeiro que cruzava a rua logo cedo. As ruas, aliás, eram um capítulo à parte. Esqueça o cinza monótono do piche. A São Paulo da infância e juventude do meu pai era feita de terra batida. Quando chovia, a terra virava lama e a vida ganhava um tom de aventura; quando fazia sol, a poeira subia alto, desenhando no ar a moldura de um bairro que ainda estava nascendo.
O despertador de muitas manhãs vinha com o tilintar de garrafas de vidro. Era o padeiro. Ele não trazia apenas o pão quentinho, mas também o leite fresco, daqueles que vinham com uma camada generosa de quase três centímetros de nata no topo. Uma nata tão grossa que quase dava para cortar com a faca, e que hoje em dia virou lenda urbana de supermercado.
“A vida era mais simples, mas tinha mais gosto”, meu pai costuma lembrar, com aquele brilho nos olhos de quem viaja no tempo.
O comércio tinha rosto, nome e sobrenome. Não existiam as grandes redes de fast-food, mas havia a vizinha da esquina. Com o avental enfarinhado e um sorriso corajoso, ela moldava coxinhas perfeitas, fritas na hora, para vender de porta em porta. O aroma ocre do óleo quente misturado ao frango desfiado inundava a rua. Cada coxinha vendida era um tijolo a mais na economia daquela casa, um suor transformado em sustento que alimentava também a cumplicidade do bairro. Todo mundo comprava, todo mundo se ajudava.
Nos finais de semana, a terra batida das ruas encontrava o seu ápice nos campinhos de várzea. Ali, entre duas traves feitas de madeira ou simplesmente marcadas por dois chinelos velhos, jogava-se o futebol mais bonito do mundo. O chão duro machucava os joelhos, os pés descalços terminavam o dia pretos de poeira, mas a felicidade não cobrava taxa de inscrição.
A Chegada do Progresso
Aos poucos, o progresso pediu passagem. E ele veio com o cheiro forte e o calor do asfalto quente.
A princípio, a pavimentação foi uma festa. Acabou-se a lama, a poeira assentou. Mas o asfalto trouxe consigo a velocidade, e a velocidade trouxe a modernidade que não tem tempo para conversas na calçada.
Logo atrás do asfalto, vieram os espigões. As casas antigas, com seus terrenos imensos onde o quintal parecia não ter fim, começaram a tombar uma a uma. Sumiram os galinheiros que garantiam o ovo frito com a gema bem amarela no almoço. Sumiram as árvores frutíferas os pés de amora, de mexerica e de goiaba onde a molecada passava as tardes empoleirada.
No lugar daquela moldura verde e terrosa, ergueram-se os condomínios de apartamentos. Caixas de concreto empilhadas, substituindo a liberdade dos quintais pela segurança das grades. As galinhas deram lugar aos pets de apartamento; os campinhos de terra viraram garagens ou estacionamentos.
A Zona Leste mudou, cresceu, verticalizou-se. Ficou mais rica de asfalto e mais pobre de quintal. Mas, enquanto meu pai me contar essas histórias, o padeiro ainda passará distribuindo leite com nata, o cheiro da coxinha caseira ainda vai perfumar a tarde e, em algum lugar de terra batida dentro de nós, a bola ainda estará rolando.
