BRT Aricanduva: após mais de uma década

BRT Aricanduva: após mais de uma década de espera

Mobilidade

BRT Aricanduva: após mais de uma década de espera, as obras finalmente avançam na Zona Leste de São Paulo

BRT Aricanduva: após mais de uma década de espera. As máquinas já estão em ação. Depois de 11 anos de anúncios, estudos, licitações e atrasos, as obras do BRT Aricanduva começaram de fato no início de agosto de 2026 na Zona Leste de São Paulo. O corredor de ônibus de alta capacidade, um dos projetos de mobilidade mais esperados da região, promete transformar o deslocamento de centenas de milhares de pessoas que dependem diariamente do transporte público entre a Radial Leste e o Terminal São Mateus.

Com 13,6 quilômetros de extensão, o sistema ligará a intersecção da Avenida Radial Leste com a Avenida Aricanduva ao Terminal São Mateus, percorrendo o eixo do Rio Aricanduva e parte da Avenida Ragueb Chohfi. O investimento nas obras civis gira em torno de R$ 646,8 milhões, com financiamento parcial do Banco Mundial (cerca de US$ 121,25 milhões no total do projeto, sendo a maior parte em empréstimo). A previsão oficial é de 18 meses de construção, seguidos por seis meses de testes operacionais. Se o cronograma for cumprido, o BRT deve entrar em operação no início de 2028 — ano de eleição municipal.

Uma novela de mais de uma década

O projeto nasceu no Plano de Mobilidade Urbana de 2015, ainda na gestão Fernando Haddad (PT). Foi mencionado em discursos de João Doria e Bruno Covas (ambos do PSDB na época) e só ganhou projeto executivo em 2023. A licitação das obras civis foi aberta em abril de 2024 e os contratos com os consórcios foram assinados no final de 2025. A ordem de serviço e o início efetivo das frentes de trabalho ocorreram em agosto de 2026, já na gestão Ricardo Nunes (MDB).

A demora teve várias justificativas oficiais: exigências do Banco Mundial (incluindo uma palestra sobre assédio sexual nos canteiros, já que haverá mulheres trabalhando), burocracia de licitação internacional (mesmo sem empresas estrangeiras interessadas) e a complexidade de um projeto que exige desapropriações pontuais, realocação de redes e cuidado com o entorno do rio. Enquanto isso, a população da Zona Leste continuou enfrentando ônibus lentos, lotados e sem prioridade real em um dos eixos mais importantes da região.

Como será o sistema BRT Aricanduva: após mais de uma década

O BRT Aricanduva foi projetado no modelo clássico de Bus Rapid Transit, com faixas exclusivas no canteiro central (pavimento de concreto de alta durabilidade), embarque em nível e cobrança antecipada de tarifa nas estações. Serão 46 estações (23 em cada sentido), espaçadas em média a cada 600 metros. Cada uma contará com portas automáticas de plataforma (sincronizadas com os diferentes modelos de ônibus da SPTrans), banheiros, ar-condicionado, sistema de combate a incêndio, Wi-Fi, salas de apoio operacional e placas fotovoltaicas para geração de energia.

O sistema incluirá faixas de ultrapassagem nas paradas, prioridade semafórica inteligente (com sensores e comunicação por fibra óptica), ciclovia ao longo de todo o percurso, requalificação de calçadas e paisagismo. A operação será monitorada em tempo real pelo novo Centro de Operações da SPTrans (COP), que está sendo construído no Pari e também atenderá outros corredores. A expectativa da Prefeitura é atender cerca de 290 mil passageiros por dia (algumas estimativas chegam a 400 mil), beneficiando indiretamente cerca de 1 milhão de pessoas nas subprefeituras da Penha, Aricanduva, Itaquera e São Mateus.

A velocidade média dos ônibus deve subir dos atuais cerca de 20 km/h nos corredores convencionais para algo próximo de 29 km/h. O tempo de viagem entre a região central e a Zona Leste pode cair significativamente quando o BRT Aricanduva estiver integrado ao BRT Radial Leste (cujas obras da primeira etapa também avançam).

Execução em quatro frentes

Para acelerar o cronograma, as obras foram divididas em quatro lotes executados simultaneamente:

  • Lote 1: Radial Leste até Rua Astarte (2,85 km) – Consórcio DP Barros / Paulitec / Era Técnica
  • Lote 2: Rua Astarte até Avenida Marapanim (3,4 km) – mesmo consórcio
  • Lote 3: Avenida Marapanim até Rua Vila Boa de Goiás (3,5 km) – Consórcio FBS / Kamilos / Casamax
  • Lote 4: Rua Vila Boa de Goiás até Rua Felisberto Fernandes da Silva (3,9 km) – Consórcio Souza Compec / Heca / Arvek

Já nos primeiros dias de agosto, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) implantou interdições parciais na faixa da esquerda da Avenida Aricanduva (sentido São Mateus) em quatro trechos. O tráfego foi desviado para as faixas da direita, a ciclofaixa foi temporariamente desativada e a velocidade máxima reduzida para 40 km/h. Motoristas e moradores já sentem os efeitos: congestionamentos maiores em horários de pico e mudanças de rota. A Prefeitura disponibilizou canais específicos de atendimento (presencial em três pontos da região, 0800 e WhatsApp) para reclamações e informações.

Impactos e expectativas

Especialistas em mobilidade ouvidos pela imprensa consideram o BRT uma solução intermediária importante. Ele tem capacidade próxima da metade de uma linha de metrô, custo muito menor e prazo de implantação mais curto. “É urgentíssimo investir em corredores desse calibre”, afirmou um pesquisador, embora tenha ressalvado que o plano de mobilidade da cidade previa bem mais do que apenas dois BRTs.

Para a população da Zona Leste — região que concentra grande parte dos trabalhadores que se deslocam diariamente para o centro e outras áreas da metrópole — a esperança é concreta: menos tempo perdido no trânsito, mais conforto e previsibilidade. A integração com a Linha 3-Vermelha do Metrô, as linhas 11-Coral e 12-Safira da CPTM e futuros corredores (como o Itaquera–Líder) deve ampliar o alcance do sistema.

Ainda assim, desafios permanecem. O projeto prevê desapropriações pontuais (cerca de 4.900 m² no total) para ajustes de geometria e implantação de estações. Há preocupação com a manutenção das faixas exclusivas após a inauguração — problema crônico em outros corredores da cidade, onde veículos particulares e comércio irregular invadem as vias. A operação assistida no início (com horários reduzidos) e a necessidade de ônibus adequados também serão pontos de atenção.

Um passo importante, mas não suficiente

O início das obras do BRT Aricanduva representa um avanço real após anos de espera. Em uma cidade onde a mobilidade da periferia sempre ficou em segundo plano, a chegada de um sistema moderno, com prioridade real ao transporte coletivo, ciclovia e estações de qualidade, é bem-vinda. A integração com o BRT Radial Leste, quando ambos estiverem prontos, deve criar um eixo estruturante poderoso na Zona Leste.

Resta acompanhar se o cronograma de 24 meses será cumprido, se os impactos no trânsito serão bem gerenciados e se, após a inauguração, o sistema receberá a manutenção e a fiscalização necessárias para entregar o que promete. Por enquanto, as máquinas rodam, as interdições estão em vigor e a população da Aricanduva começa a conviver com a obra que, finalmente, saiu do papel.

O futuro da mobilidade na Zona Leste passa, em boa parte, por esses 13,6 quilômetros de corredor exclusivo. Agora é acompanhar de perto se a promessa se transforma em realidade até o início de 2028.

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